Se existe algo belo na face da Terra, esse algo é certamente o sorriso de uma criança. Explico.
O
sorriso de uma criança não é algo que se constrói. Não pode ser
vendido. Não tem receita. Não tem marca. Não tem bula. Não tem selo. Não
tem etiqueta. Portanto, não é falso. Ele é genuinamente verdadeiro.
O
sorriso de uma criança vem de dentro do seu coração. Da pureza de um
coração que ainda não aprendeu a mentir, a falsear, a enganar, a ser mal
educado, a ser socializável, a ter um sorriso de soslaio como tem os
adultos sempre nas horas mais impróprias.
Quando uma criança sorri, ela sorri porque algo a fez feliz naquele momento.
Ela
sorri porque se recordou de algo bom que viveu. Seu sorriso é mais do
que isso: ela pede, solicita e suplica que lhe devolva aquele momento
que a fez recordar de uma boa lembrança ou de uma lembrança
suficientemente boa.
Não
é como nós adultos, que tomados da nossa empáfia quando encontramos
alguém que não desejamos ou não gostamos, soltamos a esmo: “Oi
querida(o), como você está? Tudo bom?” com um sorriso amarelo de orelha a
orelha. Ao passo que escondemos em nossas mentes pensamentos atrozes
tais como “Mas o que é que esse chato está fazendo aqui? Ai meu deus, lá
vem essa mulher de novo? Que saco!”.
O
sorriso de uma criança não é incongruente com o seu pensamento. Ela
sorri porque acha que ela deva sorrir quando encontra algo que a faz
feliz. Ela pede que a amemos como o fizemos antes, na sua parca memória.
Ela
solicita nosso gesto espontâneo porque entende que, de fato, é
verdadeiramente responsável por aquilo que cativou, como certa vez disse
uma raposa.
Nenhum
sorriso infantil, por conseguinte, vem desacompanhado por si. Ele
geralmente trás consigo um brilho nos olhos quase marejados e
“clorificados” de seu encanto e pureza sem igual e sem o qual não
seríamos objeto nem do seu desejo nem do seu amor, muito menos do seu
apelo. Toda mãe e todo o pai reconhece o sorriso do seu filho quando
criança, e por este é reconhecido.
Com
ou sem dentes, com ou sem lágrimas, com ou sem uma doce risada, com ou
sem palavras, ninguém fica incólume ao sorriso de uma criança. Pelo
contrário. Nós nos desapegamos da viscosidade de sermos adultos e nos
agarramos firmemente ao sortilégio de, por um breve segundo sequer,
voltarmos a agir como uma criança novamente.
Os
consumidores compulsivos de “sorrisos infantis” certamente já passaram
pela experiência de dizer ou fazer coisas que sequer tem correlato na
linguagem infantil. São sons inaudíveis, caretas e gestos ridículos, que
só esses “consumidores” verdadeiramente apaixonados “pelo sorrido de
uma criança” são capazes de fazer.
Só
um adulto pode tentar ser ou agir como uma criança, mas ele é incapaz
de sorrir verdadeiramente como a criança que fora outrora. Em
compensação, só uma criança pode sorrir com o ar de infante que lhe é
característico, porque ela teve a sorte de (ainda) não passar pela
sofismável e contaminável experiência de ser um adulto.
O
sorriso de uma criança é generoso por si. Ele nos cala, mas também nos
faz falar. Ele dói, mas a dor é prazerosa. Ela nos toca, mas não no
coração, é na alma. Ele nos tira o fôlego, mas é para podermos respirar
melhor no momento seguinte. Ele nos acalma. Nos aquieta. Pode até nos
inquietar. Ele nos satiriza, mas é por uma boa causa. Ele nos dá
esperança, mas essa esperança é vã.
A
esperança vã é de saber que aquela criança e aquele sorriso pode até se
perder no futuro sorriso do adulto que se transformará, mas em algum
dado momento, ele retornará ao seu verdadeiro dono no instante exato que
encontrar o sorriso de uma outra criança. A criança que foi. A criança
que se é. A criança que se tornou.
Sorria.
Sergio Gomes
http://sergiogsilva.blogspot.com.br/2010/11/o-sorriso-de-uma-crianca.html